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Destaques

LANÇAMENTO: LIVRO "JOÃO CALVINO: QUEM DIZEM QUE SOU?"

J. A. Lucas Guimarães ┐ ♥ ┌ Sob empréstimo da pergunta de Jesus aos discípulos foi publicada a décima obra da Coleção Calvino21,  intitulada: JOÃO CALVINO: “QUEM DIZEM QUE SOU?”   Esboços de retratos calvinianos O rganizada pelo historiador e teólogo J. A. Lucas Guimarães, encontra-se a convicção de que a relação de seu contexto original com as identificações à pessoa de João Calvino desde sua morte, não é mera coincidência. Se lhe fosse oportuno um lance de existência atual, é possível que ele fizesse semelhante indagação, apesar de seu desinteresse por ela em sua existência. Desse modo, tem início o empenho de disponibilizar a verdade histórica da identidade e identificação de João Calvino: advogado, um dos principais líder da Reforma Protestante do século XVI, pastor na cidade de Genebra e escritor cristão, com vasta literatura legada à posteridade, com a íntegra apresentação do Evangelho de Cristo pela fiel exposição bíblica. Porque já se distanciam os limites dos 500 ano...

DOMINGO: GUARDA E GENUÍNO SENTIDO ▪ João Calvino

João Calvino

O espírito e função da observância do domingo

Sou levado a me estender um pouco mais aqui, pois alguns espíritos inquietos, no momento, estão causando tumulto em razão do Dia do Senhor. Acusam o povo cristão de se servir do judaísmo, já que manteve a guarda de determinados dias. Contudo, respondo que esses dias são observados por nós aquém do judaísmo, porque nessa matéria diferimos dos judeus por larga diferença. Pois, não o celebramos como uma cerimônia revestida com a mais estrita religiosidade, pela qual pensamos representar-se um mistério espiritual. Pelo contrário, o consideramos como um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja.

Além do mais, Paulo ensina que os cristãos não devem ser julgados por sua observância, uma vez ser ela mera sombra da realidade futura [Cl 2.16-17]. Por isso, teme que tenha trabalhado em vão entre os gálatas, porque ainda observavam dias [Gl 4.10-11]. E aos romanos declara ser supersticioso se alguém julga entre dia e dia [Rm 14.5]. Quem, entretanto, exceto esses desvairados somente, não vê que observância o Apóstolo tinha em mente? Pois, aqueles a quem se dirigia não contemplavam nesse propósito a ordem política e eclesiástica; antes, como retinham os sábados e dias de guarda como sombras das coisas espirituais, obscureciam em extensão correspondente a glória de Cristo e a luz do evangelho. Abstinham-se dos labores manuais não por outra razão que não fossem embaraços aos sacros estudos e meditações; e assim, com certa devoção, sonhavam que, ao observá-lo, estavam rememorando mistérios antes recomendados. Contra essa antagônica distinção de dias, digo-o, investe o Apóstolo, não contra a legítima opção que serve à paz da sociedade cristã. Com efeito, nas igrejas estabelecidas por ele, o sábado era mantido para esse propósito. Ora, ele prescreve esse dia aos coríntios, para que se coletem ofertas a fim de serem socorridos os irmãos da igreja de Jerusalém [1Co 16.2].

Se, porventura, se teme superstição, muito mais perigo havia nos dias de guarda judaicos do que nos dias do Senhor que os cristãos agora observam. Pois, com o objetivo de destruir a superstição, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo, para esse fim.

O genuíno sentido do domingo

Contudo, não sem ponderável discernimento, os antigos substituíram em lugar do sábado o dia que chamamos de domingo. Ora, como na ressurreição do Senhor está o fim e cumprimento daquele verdadeiro descanso que o antigo sábado prefigurava, os cristãos são advertidos pelo próprio dia que pôs termo às sombras a não se apegarem ao cerimonial envolto em sombras. A tal ponto, contudo, não me prendo ao número sete que obrigue a Igreja à sua servidão, pois não condenarei as igrejas que tenham outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição. Isto ocorrerá, se se mantiver a observância da disciplina e da ordem bem regulada.

A síntese do mandamento é: como a verdade era comunicada aos judeus sob prefiguração, assim ela, em primeiro lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a vida observemos um perpétuo descanso sabático de nossos labores, a fim de que o Senhor opere em nós por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um, individualmente, sempre que disponha de lazer, se exercite diligentemente na piedosa reflexão das obras de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo observemos a legítima ordem da Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra, para a administração dos sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente os que estão sujeitos a nós. E assim se desvanecem as mentiras dos falsos profetas, os quais, em séculos passados, imbuíram o povo de uma opinião judaica, asseverando que nada mais foi cancelado senão o que era cerimonial neste mandamento – com isto entendem em seu linguajar a fixação do sétimo dia –, mas que permanece o que é moral, isto é, a observância de um dia na semana. Com efeito, isto outra coisa não é senão mudar o dia por despeito aos judeus e reter em mente a mesma santidade do dia, uma vez que ainda nos permanece nos dias sentido de mistério igual ao que tinha lugar entre os judeus. E de fato vemos qual proveito têm fruído com tal doutrina, pois quantos deles se apegam às estipulações superam três vezes aos judeus em sua grosseira e carnal superstição de sabatismo, de modo que as reprimendas que lemos em Isaías [1.13-15; 58.13] nada menos lhes convêm hoje que àqueles a quem o Profeta censurava em seu tempo.

Contudo, importa manter-se, principalmente, o ensino geral: para que a religião não pereça ou definhe entre nós, devem ser realizadas diligentemente as reuniões sagradas e deve dar-se atenção aos meios externos que servem para fomentar o culto divino.

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 ♥  Autoria   João Calvino (1509-1564). In: Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.

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