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DOMINGO: GUARDA E GENUÍNO SENTIDO ▪ João Calvino

O espírito e função da observância do domingo
Sou levado a me estender um pouco
mais aqui, pois alguns espíritos inquietos, no momento, estão causando tumulto em razão do Dia do Senhor. Acusam o povo cristão de se servir do judaísmo, já que manteve a guarda de determinados dias. Contudo, respondo que esses dias são
observados por nós aquém do judaísmo, porque nessa matéria diferimos dos judeus
por larga diferença. Pois, não o celebramos como uma cerimônia revestida com a
mais estrita religiosidade, pela qual pensamos representar-se um mistério
espiritual. Pelo contrário, o consideramos como um remédio necessário para
reter-se ordem na Igreja.
Além do mais, Paulo ensina que os
cristãos não devem ser julgados por sua observância, uma vez ser ela mera
sombra da realidade futura [Cl 2.16-17]. Por isso, teme que tenha trabalhado em
vão entre os gálatas, porque ainda observavam dias [Gl 4.10-11]. E aos romanos declara
ser supersticioso se alguém julga entre dia e dia [Rm 14.5]. Quem, entretanto,
exceto esses desvairados somente, não vê que observância o Apóstolo tinha em
mente? Pois, aqueles a quem se dirigia não contemplavam nesse propósito a ordem
política e eclesiástica; antes, como retinham os sábados e dias de guarda como
sombras das coisas espirituais, obscureciam em extensão correspondente a glória
de Cristo e a luz do evangelho. Abstinham-se dos labores manuais não por outra
razão que não fossem embaraços aos sacros estudos e meditações; e assim, com
certa devoção, sonhavam que, ao observá-lo, estavam rememorando mistérios antes
recomendados. Contra essa antagônica distinção de dias, digo-o, investe o
Apóstolo, não contra a legítima opção que serve à paz da sociedade cristã. Com
efeito, nas igrejas estabelecidas por ele, o sábado era mantido para esse propósito.
Ora, ele prescreve esse dia aos coríntios, para que se coletem ofertas a fim de
serem socorridos os irmãos da igreja de Jerusalém [1Co 16.2].
Se, porventura, se teme superstição,
muito mais perigo havia nos dias de guarda judaicos do que nos dias do Senhor
que os cristãos agora observam. Pois, com o objetivo de destruir a superstição,
foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se
conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o
domingo, para esse fim.
O genuíno sentido do domingo
Contudo, não sem ponderável
discernimento, os antigos substituíram em lugar do sábado o dia que chamamos de
domingo. Ora, como na ressurreição do Senhor está o fim e cumprimento
daquele verdadeiro descanso que o antigo sábado prefigurava, os cristãos são advertidos
pelo próprio dia que pôs termo às sombras a não se apegarem ao cerimonial
envolto em sombras. A tal ponto, contudo, não me prendo ao número sete que
obrigue a Igreja à sua servidão, pois não condenarei as igrejas que tenham
outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição.
Isto ocorrerá, se se mantiver a observância da disciplina e da ordem bem
regulada.
A síntese do mandamento é: como a
verdade era comunicada aos judeus sob prefiguração, assim ela, em primeiro
lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a vida observemos um
perpétuo descanso sabático de nossos labores, a fim de que o Senhor opere em nós
por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um, individualmente, sempre
que disponha de lazer, se exercite diligentemente na piedosa reflexão das obras
de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo observemos a legítima ordem da
Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra, para a administração dos
sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar, para que não
oprimamos desumanamente os que estão sujeitos a nós. E assim se desvanecem as
mentiras dos falsos profetas, os quais, em séculos passados, imbuíram o povo de
uma opinião judaica, asseverando que nada mais foi cancelado senão o que era
cerimonial neste mandamento – com isto entendem em seu linguajar a fixação do
sétimo dia –, mas que permanece o que é moral, isto é, a observância de um dia
na semana. Com efeito, isto outra coisa não é senão mudar o dia por despeito
aos judeus e reter em mente a mesma santidade do dia, uma vez que ainda nos
permanece nos dias sentido de mistério igual ao que tinha lugar entre os
judeus. E de fato vemos qual proveito têm fruído com tal doutrina, pois quantos
deles se apegam às estipulações superam três vezes aos judeus em sua grosseira
e carnal superstição de sabatismo, de modo que as reprimendas que lemos em
Isaías [1.13-15; 58.13] nada menos lhes convêm hoje que àqueles a quem o
Profeta censurava em seu tempo.
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♥ Autoria João Calvino (1509-1564). In: Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã.
┐♥┌
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