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ICONOGRAFIA DE JOÃO CALVINO: HISTÓRIA E REPRESENTAÇÕES

♥ Introdução – Calvino em retratos e representações
Reconheço que era inevitável não perguntar a si mesmo, como estudante do Curso de Bacharel em Teologia, se Calvino era pintado assim, porque era tão feio que não era possível melhorar sua aparência mais do que nos legado a conhecer, como se sempre fosse caricatura e não retrato dele? Ou ele era bonito, mas retratado feio, para que esse quesito não fosse meio de atração à sua pessoa e convencidas às suas ideias?
Desde o século XIX, eles são reproduzidos em publicações de livros e revistas não com o objetivo de oferecer ao menos um vislumbre real da figura do reformador. Com o propósito de caricaturá-lo, as gravuras dadas ao imaginário do público apresentavam o retratado em postura de inexpressividade, isolamento maquiavélico e envolvido por uma penumbra cinza, proporcionando ao imaginário ingredientes para vê-lo à semelhança de um bruxo medieval ou um Nostradamus. Portanto, era de se considerar que toda afirmação contra ele era passiva de credibilidade. No entanto, é possível que as primeiras pinturas retratando o reformador no uso do estilo de reprodução do real ocorreram paralelo com as abstrações das representações caricaturais. Por certo, as duas obras abaixo reproduzidas, dadas como exemplo, poderiam ser usadas como evidências de que houve pinturas que estamparam uma imagem de Calvino de modo a nos legar amostra em aceitável nível de fidelidade de sua real aparência.
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No Brasil, o século XX encerrou-se sob a verificação que os retratos do jurista, reformador protestante e pastor da cidade de Genebra no século XVI, manteve-se representados por menos de uma dezena deles. Foi somente, porém, no início do século XXI, sob perspectiva das comemorações dos 500 anos do nascimento do reformador em 2009, que ocorreram variações conceituais e metodológicas em retratá-lo. Primeiro, passou-se à concepção das gravuras não como retratos de Calvino, mas representações sobre ele. Consequentemente, por fim, a cor cinza se faz acompanhada ou cede lugar às cores mais expressivas, como se verifica nas seguintes capas das obras da Coleção Calvino21:
A inexpressiva representatividade da iconografia calviniana no Brasil poderia parecer sintomático do que ocorre no mundo, mas é o oposto disso. A Biblioteca de Genebra e o Museu de História da Reforma em Genebra conservam extraordinárias coleções de retratos de João Calvino. No início do século XX, Emile Doumergue, em trabalho dedicado à Universidade de Genebra (Lausanne), publica a obra de referência sobre iconografia calviniana, sob título “Iconographie Lausanne” (G. Bridel, 1909), acompanhada de dois apêndices, o “Catalogue des portraits gravés de Calvin” de H. Maillart-Gosse e o “Inventárie des médailles concernant Calvin” por Eugène Demole. Portanto, a existência de uma iconografia calviniana ocorre da possibilidade de uma historiografia dela. Isso considerado, tem-se duas vertentes na criação dos modelos iconográfico: do retrato informativo (realísticos de óleo sobre tela) e do retrato para publicação e propaganda (caricatural de melhor uso na imprensa). Nisso, segue apenas uma breve amostra da extensa e intensa iconografia calviniana, conforme se observa como tendência de estilo e não cronológica.
♥ O Calvino de Stimmer revela o talento de seu aluno
Um dos primeiros retratos de João Calvino apareceu na obra de Christoph Reusner, intitulada “Contrafacturbuch : Ware und Lebendige Bildnussen etlicher weitberhümbten unnd Hochgelehrten Männer in Teutschland” (Strasbourg, 1587), publicada por Bernhart Jobin. Por longo tempo, foi atribuída a autoria da pintura a Tobias Stimmer (1539-1584). Contudo, conforme Tobias Stimmer-Katalog (Basel, 1984), ela seria de seu aluno Christoph Murer – não apenas dada à constatação de diferença no estilo, mas ao fato de datação posterior a de sua morte.


Com a publicação do retrato de Calvino de Murer, ocorre a sua reprodução em publicações posteriores, portanto, creditando-a como referência iconográfica. Esse é o caso, por exemplo, da obra de Johann Gottfried Zeidler, “Theatri eruditorum Pictura, Carmine, Historia elaborandi compendium, Centum Imagunculas doctissimorum Menororum [...] exhibens” (Wittenberg: Henckel, 1690), que publicada o retrato do reformador já transcorrido um pouco mais de um século.


♥ Calvino descaricaturado de Rene Boyvin
Em 1562, René Boyvin faz conhecida sua pintura de João Calvino com cinquenta e três anos, com realismo próximo do que se poderia considerar natural. Esse retrato tornou-se inspiração à geração de outros pinturas do reformador, mais ou menos significativos, incluindo o de Wilhelm Josse de Hondt ou Jodocus Hondius, 1599.
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|+| Para conhecer charges e cartuns de Calvino: Chargevino
♥ O Calvino de Pierre Cruche: referência em obra
Na obra “Les Vrais pourtraits des hommes illustres” (1581), traduzida por Teodoro de Beza, é apresentado o retrato de Calvino de Pierre Cruche, a compor uma lista de retratos de personagens ilustres na piedade e doutrina cristãs.


Em 1617, com a publicação intitulada “Des œuvres complètes de Calvin” verificou-se que haviam creditado à ilustração da sua página de título a mesma em referência, que se observa a seguir:

♥ O Calvino de Pierre Woeiriot
Tem-se no retrato de Calvino, do busto com perfil voltado à esquerda, de Pierre Woeiriot de Bouzey (1532-1599), uma tendência na linha iconográfica calviniana voltada a representação icônica: o retratado é exposto em gestos que simbolizam a síntese de suas singulares virtudes. Constata-se, portanto, a representação do selo do reformador na mão que oferece o coração a Deus e a apresentação de seu lema “Pronto e sincero” na base do busto, ambos como testemunho e reconhecimento, como se percebe a seguir:

O retrato em exposição acima veio a lume através da obra impressa por Baptiste Pinereul, intitulada “Recueil des opuscules, c'est à dire, petits traictez de M. Jean Calvin : les uns reveus et corrigez sur le latin, les autres translatez nouvellement de latin en françois” (1566) ou pela publicação da “Institution de la religion chrestienne” por François Perrin (Genebra, 1566).

Também houve publicação do retrato na “Institutio christianae Religionis”, sob impressão de Jean Le Preux, em 1602.

Em Heidelberg, por volta de 1600, Jacques Granthomme toma o retrato de Calvino de Pierre Woeiriot como referência iconográfica. Pela reprodução abaixo, observa-se ausência, aparentemente, de significativa alteração no perfil retratado em relação ao original.

♥ Perfil do retrato de Calvino da Biblioteca de Genebra
A Biblioteca de Genebra preserva em seu acervo um retrato de Calvino pintado com aparência envelhecida, como se observa na reprodução abaixo. Convém ressaltar que em meados do século XVI, a média de vida do homem europeu

Pode-se verificar que outras pinturas do reformador seguem o perfil observado no retrato em exposição na Biblioteca genebrina. Em Frankfurt, o Calvino de Clemens Ammon (1672), por exemplo, é reprodução daquele perfil envolvido em moldura, dada à aquisição de singularidade da obra, que se verifica abaixo reproduzida:

Balthasar Montcornet (1600-1668), na segunda metade do século XVII, é outro que assume como referência o perfil do Calvino verificado em acervo da Biblioteca de Genebra. O resultado, no entanto, como se verifica a seguir, incorre em um retrato mais aprimorado de Calvino, com destaque ao realismo e foco centralizado na expressão facial.

Por último, faz-se apresentação da pintura holandesa do século XVII, que apresenta João Calvino em ambiente familiar, talvez para mostrá-lo sob rotina comum e pacífica.

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