J. A. Lucas Guimarães
“Porque o evangelho não é uma doutrina de língua, mas de
vida.” – João Calvino, As Institutas.
Fala-se
muito em levar a Igreja de volta ao Evangelho. É desconcertante perceber que
para muitos essa volta ao Evangelho significa afirmação de determinado sistema
de crença. Agem assim. Uma vez decidida em uma comissão e vencida a guerra da
hermenêutica, descansam sobre o documento da crença formulada. Daí, voltam para
suas casas como que com o dever cumprido até a próxima luta por levar de volta
a Igreja ao Evangelho.
O
evangelho é uma doutrina. Isto significa que ele é norma de fé e prática que
convém sistematizar para melhor compreensão e divulgação. Não se tem dúvida do
valor da doutrina. A questão é que, conforme ressalta Calvino, o evangelho não
é uma doutrina de língua. Evangelho que é bonito apenas no documento e padece
de pleno envolvimento com a dimensão do discipulado, evangelização e comunhão
cristã é estranho para os herdeiros da vocação cristã.
Já
conheci muitos mestres de “doutrina de língua”. Eles se levantam como o último
baluarte da fé cristã e promovem embates em favor de uma ênfase. Sentem-se
escolhidos para tal batalha e “conservador” da última fragrância da verdadeira
fé. Todavia, se esquecem que o evangelho é doutrina de vida. Os mestres que
defendiam a fé na igreja antiga não somente eram revestidos de piedade, mas
plenamente possuidores do evangelho na vida de forma a pastorear as ovelhas do
Senhor mantendo o olhar vigilante nos lobos, e não as abandonando desprotegidas
numa busca doentia de eliminar todos os lobos. Os mestres que defendiam a fé na
igreja antiga transformavam o saber em devoção e a devoção em saber. Sua defesa
e escritos perpetuaram-se como verdade dentro da dinâmica da fé cristã, pois
sua doutrina não era de língua. Eles traziam no intelecto a força de seu
coração, e no coração a força de seu intelecto. De forma que foram mestres
porque ensinavam ao povo a doutrina que eles mesmos viviam: o evangelho. O
próprio João Calvino é um exemplo. Ele usou sua intelectualidade para
aprofundar a piedade (é bom lembrar que a palavra piedade para Calvino é muito
cara, e sua prática é um tesouro!). Na defesa do santo tesouro, ele mais e mais
se envolvia com a igreja e a ela devotava seu melhor: a fiel exposição da
doutrina da vida – o Evangelho. Mas não somente expõe. Calvino vive cada
pregação, vive cada comunhão, vive cada doutrina, vive toda a piedade! Ele é
mestre e aprendiz. Aprende na Escola do Espírito – a Bíblia, e ensina na Escola
de Cristo – a Igreja.
É
chegado o tempo dos mestres e dos discípulos se converterem ao evangelho como
experiência doutrinária de vida. Não adianta tanta propaganda cristã, sem a luz
da vida que, através da fé em Cristo, produz boas obras para a glória de Deus.
No
último dia dirão a Jesus: “Mas nós pregamos o teu nome (através do evangelho
doutrina de língua)”. E Jesus dirá: “Apartai de mim!” Cristianismo de boca não
tem a aprovação de Deus!
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